A Herança do Chiado
É difícil começar a contar isso. Não sei se alguém vai acreditar. Eu mesmo, às vezes, duvido da minha própria sanidade, mas os fatos… os fatos estão aí, e não me deixam esquecer. Tudo começou com a televisão do meu avô.
Quando o vovô Zé se foi, ano passado, a família fez aquela partilha de bens chata. Ele não tinha muito, era um homem simples. Mas entre as poucas coisas que restaram no apartamento dele, tinha uma TV de tubo. Uma dessas antigonas, pesadona, com a tela curvada e a carcaça de plástico amarelado. Ninguém queria. Meu primo Marcos fez piada, ‘isso é peça de museu, Léo’. Minha tia sugeriu jogar fora. Mas eu tinha um carinho especial pelo vovô. Lembro-me dele sentado naquela poltrona puída, vendo uns programas de auditório e novelas, com a TV ligada o dia todo. O som da voz dele, o cheiro de café passado, e o chiado baixo daquela televisão, eram a trilha sonora da minha infância nas visitas a ele.
Então, decidi ficar. Por pura nostalgia. Fiquei com a TV. Foi um sacrifício trazer aquilo para o meu apartamento no centro. Ela era incrivelmente pesada, parecia ter chumbo dentro. Dei um jeito de colocá-la na sala, num canto, meio que de enfeite. Não tinha antena, nem conversor digital, então só servia mesmo pra decorar. Mas, de vez em quando, à noite, quando eu estava sozinho, gostava de ligar ela, só pra ver aquela tela escura ganhar um brilho fantasmagórico, aquele granulado cinza dançando e o chiado grave preenchendo o silêncio. Era uma espécie de ruído branco particular, que me lembrava de tempos mais simples.
No começo, era só isso. Estática pura. Mas depois de uns meses, a coisa começou a ficar estranha. Eu ligava a TV e, no meio da estática, começava a ver flashes. Não era defeito comum, sabe? Não era pixel morto ou linha falhada. Eram vultos. Imagens que duravam um segundo, talvez menos, e sumiam. Como um fantasma de imagem que passava e se desfazia. No início, eu achava que era cansaço. Trabalhava muito, passava horas no computador. Vista cansada, né? Mas os flashes se tornaram mais frequentes. Eram sempre noturnos. Durante o dia, nada. Só a estática de sempre. Mas depois que o sol se punha, e a luz do poste lá fora batia na janela, a TV ganhava vida.
Eu via um quarto, por exemplo. Mas não o meu. Era um cômodo antigo, com móveis escuros, uma poltrona parecida com a do vovô. Via um relógio de parede que não existia no apartamento dele. Depois, o vulto de uma mão que se movia, ligava um abajur, e tudo sumia, voltava o chiado. E o que mais me incomodava, era que o chiado… ele não era constante. Ele tinha um ritmo. Uma pulsação, quase. Como se estivesse respirando. Era sutil, eu tinha que prestar muita atenção para perceber, mas quando percebia, não conseguia mais ignorar. Comecei a deixar a TV desligada. A presença dela no meu apartamento já não me trazia conforto, mas uma inquietação crescente.
A Janela Distorcida
Não consegui ignorar por muito tempo. Aquela TV tinha uma presença. Não sei explicar. Eu sentia ela me chamando, um zumbido baixo que parecia vir do plástico amarelado, mesmo quando estava desligada. Não era um som audível, mas uma vibração, uma pressão na têmpora, sabe? Chegava uma hora da noite que eu tinha que ligar. Era mais forte do que eu. Era como se a televisão soubesse que eu estava ali, na sala, tentando ler ou ver algo no notebook, e decidisse que era hora de ter minha atenção. E toda vez, ao ligar, o chiado pulsava mais forte, e os flashes eram mais nítidos.
As imagens passaram de vultos para cenas mais elaboradas. Era como assistir a um filme antigo, mal gravado, cheio de interferência. Eu via ruas que não eram as minhas, pessoas que não conhecia. Uma mulher, por exemplo, sentada numa mesa de bar, com um cigarro na mão, a fumaça subindo lentamente. O ambiente era escuro, pesado, e a mulher tinha uma expressão de profunda tristeza. Eu nunca tinha visto ela antes, mas sentia que deveria reconhecê-la. E a cena era tão realista, apesar da distorção, que eu sentia o cheiro de fumaça na minha própria sala. Era perturbador.
Às vezes, as cenas eram de um cotidiano estranhamente familiar. Eu via uma cozinha, com uma chaleira no fogão, o vapor subindo. Um jornal sobre a mesa. Tudo normal, mas com algo… errado. Uma sombra que passava no canto, um objeto que mudava de lugar entre um flash e outro. Era como se eu estivesse vendo uma vida paralela, uma outra realidade se escoando para a minha sala através daquele portal de plástico e vidro. Comecei a ter dificuldade em dormir. Os sonhos eram fragmentos das cenas que via na TV. Acordava suado, com a sensação de ter vivido aquelas vidas, e um cansaço que não vinha do dia de trabalho.
O ponto de virada foi quando comecei a me ver na TV. Não eu, exatamente. Mas alguém com os meus traços. O mesmo cabelo castanho, a mesma barba por fazer. Mas os olhos eram diferentes. Vazios. E a pessoa estava sempre em situações… ruins. Uma vez, vi ’eu’ andando sozinho numa rua deserta, à noite, sob uma chuva fina, com um ar de desespero. Outra vez, ’eu’ estava sentado na poltrona do vovô, chorando, o rosto escondido nas mãos. E o pior: as cenas começaram a se aproximar do meu presente. Não eram exatamente previsões, mas algo mais sutil. Um dia, vi ’eu’ derrubar o café na camisa. Na manhã seguinte, aconteceu. Pequenas coincidências que se acumulavam. A TV não estava apenas mostrando, mas… influenciando? Ou talvez, criando? Eu não sabia. O chiado se tornou mais insistente, e agora parecia haver vozes embutidas nele. Sussurros indecifráveis, mas que eu sentia que eram direcionados a mim.
A Transmissão Se Torna Real
Eu tinha que me livrar dela. Era a única solução. Num sábado de manhã, determinado, fui até a TV. Respirei fundo. Eu ia levantar aquela caixa velha e jogar fora, não importava o quão pesada fosse. Mas, ao tentar mover, ela não saiu do lugar. Era como se estivesse colada ao chão. Eu puxei com toda a minha força, minhas costas estalaram, mas a TV permaneceu imóvel. Tentei desconectar da tomada. Não tinha fio. Ou melhor, não consegui encontrar o fio. Ele estava lá antes, eu juro. Um cabo grosso preto, daqueles antigos. Mas agora, não havia nada. A TV estava plugada na parede sem um fio visível. E ainda assim, emitia um zumbido baixo, uma luz fantasmagórica que parecia vir de dentro dela.
Entrei em pânico. Dei uns socos na carcaça de plástico, gritei para ela parar. A tela piscou. Em vez do chiado, por um instante, vi uma imagem nítida. Era o meu quarto. Onde eu estava. A poltrona, a mesa de centro, a estante de livros. Exatamente como na minha sala. Mas era uma imagem com a qualidade de uma transmissão antiga, pixelada, com cores lavadas e falhas digitais que eu jurei que não existiam em TVs de tubo. E então, eu me vi. Na tela, eu estava ali, socando a TV, com o rosto distorcido pelo terror. Meus movimentos no vídeo estavam um pouquinho atrasados em relação aos meus movimentos reais. Como um eco visual. A voz que eu ouvia do chiado agora parecia minha voz, mas distorcida, repetindo meus gritos. Eu não estava mais assistindo a uma TV. Eu estava dentro dela.
Olhei para minhas mãos. Elas pareciam um pouco borradas, como uma imagem de baixa resolução. Minha visão do meu próprio apartamento começou a ficar granulada, com artefatos digitais surgindo nas quinas da parede, no brilho do piso. O chiado não era mais um som distante. Era o som do meu próprio mundo se dissolvendo, se transformando em uma transmissão. O ’estático’ que eu via era o que restava da realidade lá fora, sendo substituído pela ‘programação’ da TV. Eu era um personagem, uma figura em uma novela interminável de terror, retransmitida para um público desconhecido. Meu apartamento não era meu lar, era um cenário. E eu… eu era apenas um eco, uma imagem na tela, aguardando a próxima cena a ser renderizada. A última coisa que vi, antes que a tela do meu quarto se tornasse completamente pixelada, foi meu próprio reflexo no centro da tela da TV, não como um espectador, mas como uma parte da cena, com o rosto de terror eterno, envolto em um chiado que agora era o meu único som. É assim que vivo agora. Na tela. Para sempre.
